SOLIDÃO FÍSICA

Postado em Contos, Escritos às Junho 19, 2008 por pqpensa

Para Adriana Sousa,

mãe, irmã, filha e amante

Estou silenciosa.

Quieta como rasteja fria uma serpente no meio dos galhos. Estou amazônica, verde. Nada perturba minha imensa suavidade, página passada lenta, ensaiada. Sinto-me parte dessa brisa que entra pelas frestas da casa fechada. Há insetos no meu jardim, penso. Há jardim para meus insetos, concluo.

Da parte de dentro do meu cotovelo ainda escorre o pequeno sangue de quando eu, suicida não-intencional, apertei-o demais ao me coçar. Passo o dedo, limpo o sangue. Próximo ao meu nariz eu sinto, pulsa, eu cheiro.

Estou viva, sinto. O dedo pálido, sangrento, à cabidela, encontra minha língua sedenta de emoção, de um inexplicável prazer, é como se ele tomasse um banho de cabeça. Por dentro e por fora. Fecho a boca, provo-o, tivera eu mordido um pedaço da grade da janela? O ferro escarlate percorre todos os meus dentes, gengiva, cáries, o céu molhado, róseo e não estrelado da minha boca, e vai, aos poucos perdendo o sabor, a doçura. Engulo forçada a mistura saliva e sangue. E novamente o ferro, agora frio, insípido, descendo de uma vez, cachoeira de arame farpado rasgando minha garganta, tanto que até respirar pode ser perigoso. Respirar o ar errado pode te sufocar.

Vampira, procuro, busco mais sangue na minha hemorragia. Parou: pulsar, jorrar, sangrar, saltar, doer. Parou tudo.

O mundo ficou mudo de uma vez.

Estou morta. E essa certeza é quase absoluta. Rendi-me ao tempo, o maior de todos os assassinos históricos. Estou crua, estou fria, estou trancada com cadáveres, estou presa a existência de não existir, estou focada no intrínseco da minha dor. Estou sentindo o que realmente não sinto, estou dormente, estou dormindo de olhos bem abertos, estou gritando baixo, estou sussurrando alto, estou buscando nem sem o quê e não estou encontrando.

Afio a unhas com uma tesourinha. Ponho as pontas em riste, como numa flecha. Vou penetrando-as no resto do meu braço, da minha coxa nua, do meu umbigo furado. Preciso loucamente arrancar sangue das minhas carnes. Preciso de provas da minha existência carnal, embora a certeza da não-existência seja completa, agora.

Quero acreditar que estou sentindo dor, que estou, eu mesma e não outros, me ferindo, me rasgando, quero acreditar que estou sangrando. Mas só o que vejo são vermes, pretos azuis brancos amarelos, pra que tanto verme meu Deus, pergunta o meu fígado, porém a minha língua não pergunta nada. Continuo matando-me com tanta pressa como se estivesse atrasada. Um encontro comigo, talvez.

Agora corro, para chegar até a mim mesma que não faço nada, mim mesma que certamente, não queira se encontrar comigo. Mas eu correrei, o vento baterá na minha cara, nos meus cabelos, encherá meus poros de poeira poluída, meus pés enterrar-se-ão nas areias das praias, incharão com o atrito com pedras dos calçamentos, queimarão com o asfalto quente do meio dia ou espalharão as poças d’água repletas de futuros mosquitos da dengue no meio da rua à noite, enfim, correrei até dar de cara com as minhas costas.

Encontrar-me e dizer:

- Sabia que ia te encontrar aqui.

- Eu esperava tanto que você não viesse.

(silêncio)

- É como olhar no espelho e ver-se piscando.

(silêncio)

- Você está aí? Eu sei que você não se foi, onde está você agora?

(silêncio)

-Fala alguma coisa.

-O que você quer que eu diga?

- Sei lá. Aquilo que eu quero ouvir. Pode começar com aquilo que você sabe bem que eu quero ouvir.

- Não será verdade.

- O quê?

- Isso que você quer ouvir não será verdade.

- Mas é o eu quero…

- De quê adianta ouvir o que se quer se é mentira.

(silêncio)

- Responde.

-Não sei, não sei, não sei, não sei, não sei.

(silêncio)

- Por que você faz isso comigo?

(silêncio)

-Odeio você, sabia?

(silêncio)

- Com todas as forças da minha alma.

(silêncio)

-Você está me ouvindo?

Jhonn Abreu

Postado em Cidade, Fotografias, Imagens, Temas às Maio 30, 2008 por pqpensa

Centro - Florianópolis

Centro - Florianópolis

Pedro Brandão Ramos

Não quero

Postado em Escritos, Existencialismo, Poesias, Temas às Maio 28, 2008 por pqpensa

Quero respirar…

Me dá ar, oxigênio

Solta teu bafo na minha boca

Banha de teu vapor as paredes dos meus pulmões…

Quero beber…

Me dá whisky, tequila

Mistura cerveja, com vodka e vinho

Tira o suco de cem laranjas e arranca a água de mil limões

Molha minhas roupas com o mijo de 8 anos de bebeideira exagerada

Me deixa na chuva, amarrado ao poste de luz da praça central de cabeça para baixo

Quero comer…

Me dá merda, vômito de bêbado

Me entope de gordura até as moscas me olharem com mais carinho

Me dá ração de cachorro misturada com polenta e medula de porco

Me dá lama, pedra, madeira, folhas e flores

Faz um sanduíche de vergonha para engolir junto com as lágrimas que me odeiam

Faz uma sopa de esperma com croutons de bosta e coágulo vaginal

Quero fumar

Me dá ópio, aipo, cat-nip

Me dá a fumaça do caminhão do lixo

Me dá o pó dos ossos do velho mendigo que dormia na calçada da tua casa

Me compra as plantas que permitem vislumbrar aquilo que ninguém sabe falar

Me queima, me fuma, me apaga

Encosta minha brasa na espuma do teu cuspe

Me acende, mesmo morto

Mesmo no fim

Me queima

Quero morrer

Me dá tudo ou nada.

Javier H. Venegas

 

O Reino VI

Postado em Contos, Escritos, Fantasia Medieval, Temas às Maio 17, 2008 por pqpensa

Sempre ouvi que esse era o melhor mais justo e menos opressivo de todos os reinos. Uma utopia praticamente. É só mais um na verdade, mais uma bela merda de reino, igual a todos os outros. Um príncipe incompetente que lidera o exército, um rei prepotente que se considera um deus e um mago louco preso numa torre. Fora claro, os druidas nas florestas que parecem um bando de mongolóides morando em cabanas de madeira podre. O povo é mesquinho e agressivo com estrangeiros, como qualquer outro. Nem as putas se salvam com suas tetas caídas e seus vestidos velhos e rasgados, em estalagens que parecem entradas para o inferno em si, de tão sujas e decrépitas que estão. Ao menos a cerveja é descente, e por favor, entenda descente como engolível e não como uma boa cerveja, afinal, se fosse um pouco pior não seria possível beber pois ao primeiro toque com sua língua você vomitaria. Acho que é feita com urina. Sim, eu conheço vários reinos afinal, eu preciso conhecer, ou você acha que um mercador como eu conseguiria sobreviver sem viajar?
Enquanto penso, a puta se vira na cama vagabunda da estalagem. Me levanto e visto as roupas. Levanto a mochila e puxo algumas moedas e jogo-as na cama, a puta merece algumas a mais, fez um bom serviço. Dou um beijo de despedida e uma ultima apertada em seu seio. Ela geme, mas não acorda. Saio do quarto e desço as escadas. Sento num banco ao bar e peço um caneco de cerveja, o último digo ao dono pois estou de saída. Ele responde dizendo que é tarde da noite e não é bom eu sair agora, o velho só está querendo ganhar mais dinheiro, viro o caneco e respondo que sei me cuidar e não serei estuprado como a mãe dele deve ter sido. Saio ouvindo ele resmungando, não alto pois deixei mais do que minha conta dava em seu balcão.
Após alguns minutos de caminhada saio da estrada e entro um pouco na floresta. Estou sendo seguido e aqui dentro eles serão obrigados a fazer barulho para andarem. O chão está repleto de folhas caídas e galhos podres. Escuto passos atrás de mim, puxo meu arco e atiro uma flecha na direção do barulho.
- Quem está ai? - grito
- Um possível cliente ou defunto – responde a voz – espero que seja a primeira opção, mas cabe a você me conceder o direito de contratar seus serviços
A mochila mal faz peso em minhas costas, afinal, ela é só um meio de esconder minhas armas. Ah, eu esqueci de mencionar, eu não sou um mercador qualquer. Meu trabalho é simples: matar pessoas. Sim, sou um mercenário, mas não um qualquer. Sou bom no que faço. Puxo uma tocha dela, e acendo. A minha frente está um homem moreno, ele me parece familiar, mas como não é a primeira vez que sou enganado por esse sentimento ignoro-o e digo:
- Você ainda não respondeu minha pergunta.
- Meu nome não importa no momento, mas sim meu dinheiro. Lhe darei uma bela quantia se você completar o serviço que peço, e mais serviços a frente com quantias maiores.
Eu aprendi no meu ramo que a ganância é o que realmente acaba com os assassinos como eu. Mas como todo humano, não sou imune a ela…
- De quanto estamos falando?
- Quanto você quiser.
- Você deve saber que meu preço é alto
Sei e também sei que você sempre cumpre seus contratos. Por isso o procuro, estou cansado de mandar mercenários ruins pagando barato, que não completam o serviço e são mortos antes mesmo de serem interrogados. Você aceita o serviço?
- Aceito sob algumas condições…
- Me acompanhe então. Discutiremos elas em um lugar apropriado.

Continua…

Pinguin

Postado em Cotidiano, Escritos, Poesias, Temas às Maio 17, 2008 por pqpensa

Aquele remédio cura, mãe?
Quando a vida virou escura, pai?
Quem era teu amigo, filha?
era seu o pulso atrás da escuta?
onde o padre esquece o amém?
que horas solam? já é chão? Posso pisar?
Que espinho te rosa, margarida?
Que fruto te madura, maria?
Cata alguns comigo
cata alguns
cata

que gozo te abre flor?
que notícia te causa, dia?
que te alumia sol?
deita aqui comigo, então
comigo, então
comigo

então…

Com Deus me deito, com Deus me levanto, com…

(deu-me um espanto!)

Ah,mundo e acalanto!

Jack Borandá

RELATOS SOBRE MARULHO

Postado em Escritos, Natureza, Poesias, Temas às Maio 11, 2008 por pqpensa

§ “Essas palavras rudes de mar
ardem ainda pelo sal
que carregam.”

§ “… e eu não sei realmente
se sou culpado ou inocente…
Mas gosto da culpa!
É ela quem me inocenta.”

§ “(…)Elas que explodem
pipoca arrebenta
o recalque das pedras…”

§ “Ardem desde a boca ao
ponto cego que exasperam.
E lançam seus falantes
a fundo nessa linguagem
num afã divino (lê-se: pagão).”

Essas palavras rudes de mar.

Jack Borandá

DOIS CORPOS PARA UM MESMO AMOR – A MORTE

Postado em Fotografias, Imagens, Morte, Temas às Maio 11, 2008 por pqpensa

André S.A.

14/04/2008 - Resolução (captação): 1 megapixel

Postado em Escritos, Existencialismo, Poesias, Temas às Maio 9, 2008 por pqpensa


Lúcida transparência

Tensão sôfrega

Pés que sentem o que se respira

Gritos que perduram

Pensamentos que se escrevem

Silêncio

Roxo. Céu. Púrpura. Mar.

Pausas contidas

Segredos escondidos

Reminiscências focadas

Luz que te foi roubada

Calçada

Areia. Luz. Lisboa.

Catarina Neves

Quem escreve sonha

Postado em Ensaios, Escritos, Existencialismo, Temas às Maio 6, 2008 por pqpensa

Quem escreve grita, chora, ri, ama…
Quem escreve sonha.
Quem escreve voa, viaja, se teletransporta…
Quem escreve sonha.

Quando escrevemos colocamos no papel nossas lágrimas, angústias, sonhos, esperanças, desejos, tormentos…
Nossos mais íntimos sentimentos são absorvidos por esse nosso amigo inseparável…

Quero voar, amar, me entregar sem medo, querer e me sentir querido.
Quero o concreto e o abstrato…
Quero gritar ao mundo, tomar banho de chuva, me sentir só numa multidão, me sentir numa multidão apenas com você ao meu lado, fazendo com que esse “apenas” se torne apenas uma palavra.

Quero ser livre, sem compromissos, que ninguém precise de mim, mas que alguém me queira ao seu lado.
Quero sucesso, reconhecimento, que meu muro de lamentos seja objeto de admiração.
Mas também quero sossego, quero ter o meu mundo e que ele seja completo com ou sem o que sonho.

“Todos temos duas vidas: Uma a que sonhamos, outra a que vivemos…”

Matt Rocha

Caminhos

Postado em Existencialismo, Folk Rock, Músicas, Temas às Maio 6, 2008 por pqpensa